Boa parte das pessoas que pretendem se tornar profissionais criativos um dia, começam como micreiros. Isso não quer dizer que “ser micreiro” é algo ruim, ou que você deva se envergonhar de ser considerado um. Por isso eu resolvi escrever um pouco sobre como ser micreiro é importante para  seu aprendizado e evolução profissional, e como você pode transformar esta fase em uma etapa importante de sua carreira.

Talvez você nem saiba o que é ser um micreiro, então vamos a uma definição rápida:

O micreiro é a  pessoa que tem o hábito de utilizar o microcomputador. Um usuário perito e aficionado de microcomputador.

Porém, não é deste micreiro generalizado que estamos falando, no meio criativo, especificamente o do design, temos uma espécie de micreiro nativa:

Basicamente são aqueles que dizem que são designers mas que não obtiveram nenhum tipo de formação acadêmica ou mesmo profissional e que utilizam em seus “projetos“ apenas seus conhecimentos em softwares de edição gráfica como CorelDRAW por exemplo. Os micreiros costumam ter pouca ou nenhuma noção de projeto gráfico fazendo na grande maioria das vezes apenas plágios de outros projetos ou simplesmente utilizando péssimas fontes de referências para seus trabalhos o que acaba refletindo em peças de qualidade comum ou duvidosa e, o pior de tudo, com um preço baixíssimo em relação a um profissional. – Design01

No link acima você encontra um artigo muito bom, escrito pelo Rafael Costa, que já te dará uma boa noção sobre a influencia dos micreiros no mercado profissional. Ele reflete, inclusive, bastante do que vou falar aqui. Então leia o texto do Design01, ele vai te ajudar a entender melhor o que eu vou dizer.

Como eu me tornei micreiro

Quando eu era mais novo, na faixa dos 14 ou 15 anos, abri um pequeno negócio com meu tio, que tem a minha idade. Nós eramos pintores letristas, trabalhávamos principalmente em é poca de campanha eleitoral, pintando muros e faixas para qualquer candidato à eleição que estivesse disposto a nos pagar. Depois de um tempo pintando no quintal de casa, mudamos para uma casa velha, abandonada, que era vizinha nossa.

Eu considero este período o começo de minha afeição pelo design, pelo trabalho criativo, pelas cores, pela ordenação de elementos de texto e construção de layouts. Eu nunca fui pintor profissional, nunca estudei para isso, e na época os computadores eram para poucos. Eu poderia ser facilmente considerado um “micreiro” do pincel e tinta.

Depois disso, eu consegui o meu primeiro emprego como operador de máquina copiadora, daí pra frente a minha vida pode ser resumida em muito estudo, muita sorte, e oportunidades bem aproveitadas. Eu conheci o computador, os tutoriais, a internet, os livros, os cursos livres, os workshops e tudo o mais que podia me trazer qualquer tipo de conhecimento.

Antes de eu me tornar arte-finalista em uma gráfica, eu fui um dos micreiros mais conhecidos da minha cidade. Eu digitava currículos como ninguém, aprendi a digitar de olhos fechados usando aquele cursinho HJ datilografia. Editava fotos 3×4 com uma agilidade incrível, me alimentava com CD-ROMs de cursos da Digerati. Eu montava cartões de visitas com uma percepção que nenhum outro tinha na região. Eu era “o micreiro”.

Como você se torna um micreiro

Quando você se apaixona por uma profissão, você passa se interessar por tudo o que tenha a ver com o que você quer fazer. Começa a ler, estudar em livros, revistas, e tem o desejo incontrolável de colocar isso tudo em prática. É aí que você começa a fazer o cartãozinho do seu tio, o convite de aniversário da sua prima, o panfleto daquela tia que tem uma loja de roupas.

O fato de o design gráfico utilizar ferramentas acessíveis por qualquer pessoa o torna suscetível a concentrar um grande número de micreiros, que aprendem a usar softwares e se espelham em trabalhos de profissionais para criar seus próprios trabalhos e conseguir algum dinheiro com isso.

O micreiro não escolheu ser micreiro, ele se tornou em decorrência do seu interesse em ser um profissional criativo um dia. Ele procura aprender por conta própria o máximo que pode, até chegar aquele momento em que ele não tem mais para onde ir, e precisa evoluir.

As vantagens de ser micreiro

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O lado bom disso tudo é que você desenvolve habilidades e competências que vão te ajudar quando começar a cursar faculdade, por exemplo. A proatividade e a iniciativa de aprender por conta própria são excelentes fatores para assimilar com maior facilidade o que vem pela frente.

Embora a grande maioria se empenhe em aprender apenas a utilizar ferramentas, bons micreiros também se interessam por conceitos de design e pela teoria que há por trás da profissão que escolheram. Estes geralmente são os que alcançam maior influência no mercado informal. Você estará um passo à frente rumo à profissionalização.

Ainda que existam referências de autodidatas que construíram carreira sem uma formação superior, o caminho é tão difícil e os casos tão específicos, que você precisa, sim, se preocupar em conseguir uma formação que lhe garanta o aprendizado e a experiência necessários para seguir carreira.

O mito do micreiro destruidor de sonhos

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Ainda hoje existe o mito de que um micreiro possa tomar o lugar de um profissional competente. Isso é bobagem, o micreiro tem o seu papel e o público específicos, ele não compete de igual para igual com um profissional e muito menos tem capacidade para tomar o lugar deste no mercado de trabalho.

O designer que usa como desculpa o micreiro, para se rebelar e pregar que está tomando o seu lugar no mercado de trabalho, certamente não tem qualquer noção de mercado e só está escolhendo um bode espiatório para justificar o seu próprio fracasso.

Afinal, eu nunca vi agências de publicidade contratarem o micreiro para desenvolver projetos para seus clientes. Ainda não ví a editora Globo contratar micreiros para diagramar os seus tablóides. Ainda não ví a agência África contratar micreiros para desenvolver seus trabalhos premiados.

Da mesma forma, ainda não ví o designer profissional desenvolver a plaquinha de “vende-se pastel” para a padaria da esquina. Não ví o designer profissional desenvolver aquele cartãozinho de R$ 50,00 para o cara da lanchonete. Ainda não ví o designer profissional construir aquele “site simples” que a escolinha do bairro precisava mas só tinha R$ 250,00 para investir.

O profissional está do lado de lá, e o micreiro do lado de cá, eles não competem entre sí, eles não estão no mesmo nível de mercado, eles não colaboram com a mesma faixa de clientes.

Micreiro profissional vs o profissional micreiro

Mas não se engane, assim como existem excelentes profissionais sem canudos, e que são considerados micreiros apenas por não terem formação, existem muitos micreiros com o canudo esticado, pendurado na parede, mas que são uma bela bosta como profissionais criativos. Pessoas que trilharam todo o caminho para serem profissionais de verdade, mas que nunca deixaram de ser micreiros.

Chega até ser um insulto chamar esse tipo de “profissional” de micreiro, uma vez que o micreiro está em evolução, e este “profissional”, por sua vez, está em total involução. A postura profissional é determinante para que você evolua no mercado de trabalho competitivo e canibal.

Eu vejo com muito mais frequência do que gostaria, os profissionais de canudo reclamando nas redes sociais dos seus clientes que pedem alterações, daqueles que opinam no seu trabalho, daqueles que não entenderam nada do que eles propuseram. Também vejo com bastante frequência, no ambiente de trabalho, aqueles que usam bastante termos como: “não dá pra fazer”, “não tem como” ou “é impossível”.

Para entender um pouco mais sobre isso, eu recomendo o excelente Infográfico: Como os micreiros prejudicam os designers, escrito pelo Rogério Fratin, no blog Designices.

No final das contas, a rivalidade micreiro vs designer não existe, e assumir ser micreiro não é motivo para se envergonhar, pelo contrário, você está assumindo que está trilhando o caminho para se tornar profissional um dia.

A melhor maneira de fazer isso é usar toda sua força de vontade e o seu empenho para estudar, e conseguir uma vaga em uma universidade. Se isso não for possível, não desista, existem muitos outros caminhos que podem te ajudar a se tornar um profissional qualificado, como eu já mostrei na série Como me tornar um designer, aqui do Clube do Design.

6 COMENTÁRIOS

  1. Isso é muito relativo, já vi muito profissional de designer ser uma bela porcaria nem saber que resolução imprimir e já vi micreiros excepcionais que dariam um baile em muitos doutorandos que dão aula.

    • O “micreiro” é especificamente um aprendiz, uma faixa de tempo entre o começo da experiência e a aquisição dela (seja por faculdade, cursinhos ou por conta própria) diferente de um profissional liberal, autônomo ou autodidata. São coisas diferentes. Um profissional autônomo e autodidata pode muito bem competir com um formado, mas não é regra, e sim a exceção. Justificar com um “qualquer pessoa sem faculdade pode fazer melhor” (não é o seu caso, mas tem gente que usa esse pretexto) é perigoso e não condiz com a realidade.
      Um abraço!

  2. Artigo fantástico!
    Eu sempre me senti mal por fazer isso, me considero um micreiro agora, aprendi desta forma, desde minha infância fui fascinado pela arte gráfica, mas como ainda não tive condição de me dedicar financeiramente para aprender a profissão eu faço o que eu sei da forma limitada que eu sei! Como o artigo diz ” pro cara do pastel, a tia do salão, o boteco da esquina, ou aquele primo/tio chato. Mas depois de ler este artigo eu posso ter certeza que não devo ficar de consciência pesada por fazer o papel de um “graduado”.

    • Muito obrigado! Acredito que seja o perfil do profissional do futuro, aprender tudo muito cedo e por conta própria, e quando chegar o momento, fazer uma faculdade para alavancar ainda mais estes conhecimentos.
      Um abraço!

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