Logomarca existe sim… só o seu orgulho não aceita

4
201

A discussão “logotipo x logomarca” ainda é acalorada até hoje. É quase que um cover do “Corel x Illustrator”, só que em um nível emocional muito maior.

A palavra passou a ser odiada depois que Ana Luiza Escorel, no seu livro “O efeito multiplicador do Design” a condenou lá em 1999. Dai em diante, vemos um emprego literal do famoso “Maria vai com as outras”.

Uma enxurrada de profissionais do ramo aderiu a ideia e começou a espalhar pelo mundo que “logormarca não existe”.

Acontece que a autora do livro cometeu alguns “pequenos” deslizes em sua análise: além de não ser linguista (o linguista é o profissional capacitado para analisar este tipo de assunto) tentou usar etimologia para explicar uma palavra que provavelmente tem suas origens em terras tupiniquins.

A etimologia estuda como as palavras surgiram e evoluíram, e de nenhuma maneira diz que “toda palavra tem que derivar de outra com completo sentido lógico”. Etimologia estuda como elas surgiram, não dita como elas “devem” surgir.

A etimologia estuda como as palavras surgiram e evoluíram, e de nenhuma maneira diz que “toda palavra tem que derivar de outra com completo sentido lógico”. Etimologia estuda como elas surgiram, e não dita como elas “devem” surgir.

É mais ou menos como dizer que um historiador é quem decide o que é história.

Ok, muitas pessoas podem levar isso a sério na hora de compor uma palavra, mas novamente, o linguista pode te explicar muito bem como isso acontece.

O que se defende hoje em dia é baseado no seguinte texto (não é literal, eu o transcrevi para ficar mais curto):

O termo “logomarca” é formado pela união de “logos” e “marca”. Onde “logos” vem do grego e significa conceito, significado. Já “marca” vem do germânico “marka” e traduz-se como significado. Assim, a palavra logomarca seria um termo redundante: significado do significado, sem sentido.

Entretanto, a autora empregou um sentido completamente equivocado ao afirmar que “logos”, do grego, quer dizer especificamente “significado”, quando a realidade não é esta! O termo “logos” em sua construção original significava “palavra” escrita ou falada (verbo), e a partir de filósofos teve o seu significado ampliado, passando a assumir muitos outros, principalmente no nosso idioma. Falei sobre isso em outro texto sobre este assunto.

Há quem defenda que a “versão brasileira” na verdade juntou a abreviação de “logotipo” (que todo mundo aqui chama só de “logo”) com a palavra “marca”, achei até mais “fofo”.

Ocorre que a autora, provavelmente já enviesada por sua opinião (que esbanja apreço por termos estrangeiros, chamando estes de “corretos” e os criados aqui de “errados”), quis assumir que Logos quer dizer estritamente “Significado”…

O problema não acontece ai, mas é que todo mundo assumiu isto como correto sem ir atrás de outras fontes. Os designers, que se vangloriam de serem referência quando o assunto é respeitar o trabalho alheio (ao menos a maioria), assumiram que a autora estava certa e sequer se deram ao trabalho de pesquisar, nem que fosse um pouquinho, a origem da informação.

O problema não acontece ai, mas é que todo mundo assumiu isto como correto sem ir atrás de outras fontes.

É de se espantar que uma classe de profissionais que tanto defende que o trabalho alheio deve ser respeitado, queira assumir o trabalho de linguistas e ditar como uma palavra pode ou não surgir. E quando tentam fazer isso, fazem ao nada bom e velho estilo “eu ouvi meu colega designer dizer, então eu não preciso saber se é verdade”.

O que é mais estranha é a argumentação que se usa para justificar de toda forma algo que não compete ao designer: “Na minha opinião, não representa o que as pessoas acham que esta palavra significa” – Revista Design.

O que determina o significado de uma palavra não é a opinião de ninguém, não é o que eu ou o que você acha, mas sim o significado que está intrínseco a ela: é real; tem importância, significação por si própria, independentemente da relação com outras coisas. Vai me dizer que você não sabe o que significa quando alguém te pede uma “logomarca”?

Aliás, como hoje em dia as pessoas assumem que “logomarca não existe”? Muita gente desinformada, que não pesquisa ou se interessa em aprender sobre determinado assunto aceitando tudo o que lhes dizem apenas porque condiz com o que acreditam.

Temos um problema generalizado, estes mesmos profissionais um dia podem se tornar professores, e vão ensinar para seus alunos algo que surgiu de uma afirmação equivocada.

Infelizmente a aversão a palavra logomarca atinge a nível emocional muita gente. Quando alguém assume uma crença ou ideia de forma emocional, não há evidência que a convença do contrário. Está vinculado ao sentimento, se torna irracional. Tentar convencer qualquer pessoa através de fatos ou argumentação lógica não vai gerar resultado algum, se não farpas e alguma hostilização.

Isso causa uma onda de pessoas que defendem o indefensável apenas porque condiz com o que acreditam. Assumir, hoje, que tal palavra existe (é comum, aceitável, tem significado, está nos dicionários e que as pessoas a dizem) gera sentimento de exclusão.

Assumir, hoje, que tal palavra existe (é comum, aceitável, tem significado, está nos dicionários e que as pessoas a dizem) gera sentimento de exclusão.

Se um designer diz que “logomarca existe”, ele automaticamente é taxado de sobrinho e passa a ser alvo de críticas ou comentários grosseiros. É claro que todos que defendem que a palavra “não existe” usam o mesmo argumento que a Sra. Escorel, mesmo que não saibam que ele é fruto de um equivoco.

Esta discussão se estende por muitos anos, e todas as vezes que surgem em grupos ou páginas de redes sociais há um mar de pessoas que digladiam que “não existe” simplesmente por que alguém lhes disse. Sequer se interessaram em buscar referências, pesquisar sobre o assunto e ver se o que estão falando e defendendo realmente procede.

Isso abre um precedente para comparações do tipo: “mas na medicina não é assim”, “mas na advocacia não é assim”, entre tantas outras justificativas sem pé nem cabeça. Quem sabe você tenha melhores resultados se fizer uma comparação com profissões que atuem dentro do campo da comunicação, das ciências humanas, do design, da tecnologia?

Parece que o simples fato de dizer “logomarca” desperta algo nestas pessoas, e elas sentem o desejo de odiá-la, não importando se ela tem um significado ou não, se todo mundo diz que não existe, então eu vou dizer também!

Não lembra um pouco o ódio infundado por uma fonte de cantos arredondados e com aparência infantil, a Comic Sans? Tem gente que nem sabe porque odeia. Algo que expliquei no longo, mas interessante, Por que todos odeiam Comic Sans?

É claro que os profissionais da área são responsáveis e devem zelar pela preservação de termos técnicos, mas existe um limite, uma linha de fronteira que separa a responsabilidade do designer em suas funções, e a da linguística, que é o que pode avaliar e descrever como os neologismos surgem e são incorporados a um vocabulário (e olha que logomarca é mais velha do que eu e você, somadas as nossa idades).

Temos grandes exemplos de neologismo que surgiram, foram incorporados ao nosso dicionário e são usados hoje como palavras “normais”, e não vejo ninguém se descabelando por isso. Afinal, quem aí vai cismar que as palavras “blogueiro” ou “internet” não existem?

Deveríamos, por exemplo, desconsiderar a importância dos escritos de William Shakespeare para o desenvolvimento da linguagem e da literatura?

Existe um texto que circula há tempos creditado a Carlos Drummond de Andrade (carece de fontes) que diz o seguinte:

As Palavras Novas

Entre coisas e palavras – principalmente entre palavras – circulamos. A maioria delas não figura nos dicionários de há trinta anos, ou figura com outras acepções. A todo o momento impõe-se tomar conhecimento de novas palavras e combinações de.

Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução actual, pelo seu ouvido, sem a registar. Amanhã, pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz.

A cassete, o spray, o linóleo, o nylon, o nycron, o dictafone, a informática, o telex existiam em 1940?

Ponha aí o computador, os mísseis, o biquini, o módulo lunar, o antibiótico, o enfarte, a acupunctura, o acrílico, o apartheid, o som pop, as estruturas e a infra-estrutura.

Não se esqueça também (seria imperdoável) o Terceiro Mundo, a descapitalização, o desenvolvimento, o unissexo, os mass media, a renda per capita.

De passagem, anote a reunião de cúpula, a conjuntura, o ioga e o iogurte.

Só? Não. Tem seu lugar ao sol a metalinguagem, as algias, a coca- cola, o superego, a futurologia, a UNESCO e a ONU.

Estão reclamando porque não citei a conotação, o conglomerado, o diagrama, a IBM, o zoom e a guitarra eléctrica.

Mas por sua vez se esqueceram de lembrar o ecumenismo, monema, parâmetro, gerontologia, genocídio, política habitacional.

Olha aí na fila – quem? Embraiagem, desfasamento, vela de ignição, engarrafamento, poliéster, poluição.

Mas há que haver espaço para sectorial, tónica, napalm, passarela. A transplantação. A implantação. O audiovisual e seus flanelógrafos. A macrobiótica, pois não. E o off-set.

Fundos de investimento, e daí? Também os de incentivos fiscais. Know-how. Máquina de barbear eléctrica de 90 micro-ranhuras. Baquelite. LP e compacto. Alimentos congelados. Circuito fechado de TV. (…) Entre palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos, finalmente, mas com que significado?

Se você não tá nem aí pra tudo o que eu disse e quiser saber o que alguém da área de línguas acha, eu recomendo o sempre atual A logomarca e o ornitorrinco.

Espero que este texto tenha te ajudado a despertar o seu lado criativo e curioso, e entender que usar ou não usar uma palavra cotidiana não vai fazer a mínima diferença na sua competência profissional. No final das contas, somos comunicadores, e deveríamos entender o valor que as novas palavras tem, principalmente quando elas tem um significado tão forte.

4 COMENTÁRIOS

  1. “Quando alguém assume uma crença ou ideia de forma emocional, não há evidência que a convença do contrário. Está vinculado ao sentimento, se torna irracional. Tentar convencer qualquer pessoa através de fatos ou argumentação lógica não vai gerar resultado algum, se não farpas e alguma hostilização.”
    Ótima matéria Liute! Isto me lembra muito o relativismo que o mundo tem vivido… “Eu penso assim”, “Eu acho isso certo” e se esquecem que existe uma Verdade, uma lógica que não pode ser ignorada.

  2. “O que determina o significado de uma palavra não é a opinião de ninguém, não é o que eu ou o que você acha, mas sim o significado que está intrínseco a ela: é real; tem importância, significação por si própria, independentemente da relação com outras coisas. Vai me dizer que você não sabe o que significa quando alguém te pede uma “logomarca”?”

    Quer dizer que se a maioria das pessoas falam erradas uma palavra, cabe a nós concordar com elas e não corrigi-las? Vai numa loja e pede um “trabisseiro” – o vendedor vai entender, mas nem por isso a palavra não deixa de estar errada. Discordo totalmente do artigo. Eu enxergo “logomarca” como alguém falando MARCA MARCA. Isso não existe. Ninguém empurra essa expressão na cabeça do profissional da área, pelo contrário: isso é debatido amplamente nos meios acadêmicos, professores levantam essa questão e não nos empurram goela abaixo. Cabe ao profissional da área por formação orientar quando alguém utiliza esse termo, como em qualquer outra profissão.

    • A comparação não está correta. Você seria mais coerente se a comparasse com “blogueiro”, por exemplo. É um neologismo, e não uma palavra errada. Sobre o meio acadêmico, se você ler ao o começo do artigo, vai saber de onde esta afirmação veio, e não faz sentido algum acata-la só por que uma designer não a conhece.

      Agora sobre o “goela abaixo”, foi exatamente isso que fizeram. Empurraram goela abaixo uma conceituação errada, e olha você aqui defendendo ela. Eu não estou apontando uma arma na sua cabeça, estou argumentando e mostrando pra você as respostas. Isso só demonstra aquele cadinho emocional que eu mencionei no texto.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here