A cor não é algo atrelado a um objeto ou a uma superfície, é um evento que é ativado no observador. Apesar de todos recebermos a cor da mesma maneira física quando ela entra em nossos olhos, o que acontece depois depende de cada um.

O significado de uma cor é determinado pelas nossas próprias experiências. Apesar de existirem deficiências que podem interferir na maneira como vemos as cores, a maioria das pessoas sofre os mesmos estímulos e produz a mesma reação visual, mas o que vem depois disso é outra história, somos nós que determinamos o significado que esta cor tem para nós.

O significado das cores varia de acordo com a cultura de um individuo, mas também está associado às experiências individuais. Imagine que o preto pode significar luxo ou elegância para alguns, enquanto para outros é luto e tristeza.

Uma cor ou uma composição colorida pode significar algo diferente para cada pessoa que olha para ela. Poderíamos dizer que a cor não se forma apenas no olho, mas também no “eu”. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty acreditava que o ver é um duplo fenômeno: um encontro com o mundo e um encontro consigo mesmo.

Cor na vida moderna

Até mesmo cidades retratadas como cinzentas ou monocromáticas apresentam uma grande variação no emprego do uso das cores. Se você mora em uma cidade grande, observe as ruas ao seu redor, você verá o colorido das placas, dos cartazes, das paredes, dos tijolos.

Mesmo que um prédio seja totalmente monocromático, alguém poderá ter grafitado os seus muros com diferentes tons coloridos, ás vezes como sinal de rebeldia, às vezes para contar uma história.

As cores são uma ferramenta eficiente na publicidade. Sempre que alguém quiser te vender algo, haverá uma cor tentando te convencer de que aquele é o produto que você precisa. Você consegue pensar em uma marca sem lembrar das suas cores?

Qual é a cor da marca Coca-Cola? Qual é a cor da marca Starbucks? Qual é a cor dos rótulos de refrigerante da Pepsi? Esta é a primeira razão pela qual você nunca irá se confundir na hora de pegar uma garrafa no supermercado.

Mas a utilização da cor neste contexto nem sempre tem uma intenção direta com o significado. Na maioria das vezes uma cor é escolhida principalmente para diferenciar um produto de outro, evitando que eles sejam confundidos nas prateleiras.

Apesar de as leis impedirem que uma cor seja registrada para uso exclusivo, a principal preocupação é não parecer uma cópia descarada do concorrente, isso sim pode gerar problemas legais e de percepção do mercado.

Contudo os anunciantes frequentemente usam a cor de maneira projetada, para despertar uma ressonância nos desejos inconscientes do consumidor. A empresa britânica de telefonia celular Orange, apropriou-se de uma cor tanto no nome como na matriz para criar uma das marcas mais bem-sucedidas da década de 1990.

Seu slogan “O futuro é brilhante. O futuro é Orange (laranja)” exprimia a mensagem de otimismo e progresso que a empresa esperava transmitir.

As cores de uma organização representam um tipo mais insidioso de comunicação. Cuidadosamente escolhidas, elas podem ajudar a comunicar uma mensagem que, de outra maneira, seria difícil de expressar apenas com palavras.

É claro que esta associação de cores não se limita ao comércio. Nós usamos no nosso dia-a-dia. Vincular um conceito a uma cor ajuda a carregar todas as significâncias que queremos que ela contenha: “sangue azul”, “ameaça vermelha”, “revolução verde”. Tais termos são especialmente cunhados em publicações jornalisticas com o objetivo de transmitir significados de modo mais conciso.

A autora Naomi Klein defende que as onipresentes marcas corporativas e a colonização das cores são prejudiciais à sociedade (Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido – Record, 5ª ed., 2006). Enquanto os efeitos psicológicos continuam a ser debatidos, os efeitos físicos são inevitáveis.

A Coca-Cola e a Pepsi, assim como outras empresas, foram multadas em milhares de dólares por desfigurarem o belíssimo passo de Rohtang, no Himalaia, pintando seus logotipos nas rochas. O efeito da interminável propaganda colada sobre todas as superfícies verticais pode parecer um pouco menos destrutivo no ambiente urbano.

Essa propaganda de saturação também torna difícil para designers abrir caminho entre as associações de cores geradas. Até os anos 1930, Papai Noel podia ser representado de qualquer maneira, mas depois que a Coca-Cola o vestiu com suas cores corporativas como parte de uma campanha para vender bebidas geladas no inverno, o vermelho e o branco tonaram-se a única paleta aceita para o guarda-roupas do velhinho.

Cultura e criatividade

Culturas distintas podem ter diferentes significados para determinadas cores. A cor vermelha foi utilizada no Império Romano. Foi utilizada como matriz estética pelo partido nazista assim como por anarquistas, comunistas, socialistas e sindicalistas como cor simbolo do movimento operário internacional, simbolizando o sangue derramado pelos trabalhadores em sua luta por emancipação.

Usualmente é também a cor predominante utilizada em redes de alimentação fast food. O vermelho é a cor do sangue e naturalmente provoca uma reação de atenção nos indivíduos.

Outras cores possuem significados diferentes em culturas diferentes, como por exemplo o luto. A cor, elemento indissociável do nosso cotidiano, exerce especial importância sobretudo nas artes visuais. O Shutterstock tem um texto muito legal sobre as cores em diferentes culturas, você pode ler aqui.

Na pintura, escultura, arquitetura, moda, cerâmica, artes gráficas, fotografia, cinema, espectáculos, etc. ela é geradora de emoções e sensações. A cor tem vida em si mesma e sempre atraiu e causou no ser humano de todas as épocas, predileção por determinadas harmonias de acordo especialmente com factores de civilização, religião, evolução do gosto e especialmente pelas influências e diretrizes que a arte marca.

Observe como a maioria desses emparelhamentos difere das tradições que informam o simbolismo comercial das cores. A água geralmente é azul (verifique o logotipo da sua companhia de água), uma cor também associada ao ar, enquanto a terra está ligada ao laranja e ao verde.

No cinema e na televisão, a cor pode ser profundamente simbólica, indicando e enfatizando temas ou personagens específicos, tentando provocar ou reforçar respostas emocionais.

O público pode deixar de perceber muitas referências simbólicas das cores, daí o número de guias disponíveis na internet e em livros explicando como “ler” certas cenas de filmes.

Alguns diretores afirmam que o público inconscientemente registra o significado das cores em seus trabalhos. Mesmo sem aceitar que as associações das cores sejam fixas, podemos argumentar que ligar repetidamente uma cor a um personagem ou tipo de acontecimento em uma narrativa criará ligações na mente do espectador.

O vermelho é utilizado com muito mais frequência do que qualquer outra e muitas vezes se relaciona com temas de paixão, obsessão e desejo. O verde, uma cor à qual raramente as marcas comerciais recorrem, frequentemente é empregado no cinema para representar inveja, embaraço ou desconforto.

O GeekNess tem um texto que mostra 28 paletas de cores do cinema e suas sensações. Vale a pena dar uma lida.

Este texto faz parte da nossa Série Sobre Cores. Clique no link e veja todos os artigos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here